Ao longo de séculos o centralismo lisboeta desprezou as legítimas aspirações dos povos ilhéus em encontrarem uma solução de auto-governo que fosse de encontro às suas características geográficas, sociais, culturais e económicas. O 25 de Abril abre finalmente a porta para que na Constituição de 1976 sejam reconhecidas as autonomias insulares.
Três décadas depois pode parecer desnecessário relembrar que a Autonomia foi uma justa aspiração pela qual lutaram muitas gerações de madeirenses e açorianos. Ganha com muito suor e lágrimas, é a mais importante herança que os nossos os jovens ilhéus recebem. Que ninguém tenha a veleidade de a colocar em causa. Mais do que tudo, temos de perceber que o processo de descentralização do poder político nunca está concluído. Devemos assumir como limite apenas a unidade do Estado. Qualquer outro limite é inadmíssivel por ser uma tentativa de confinar a um espartilho as nossas legitímas aspirações autonómicas. É preciso estar alerta pois se nós herdamos as aspirações autonómicas, outros herdaram os tiques centralistas e o desejo de subjugar os povos insulares. Não podemos fraquejar. Este é um caminho que se faz caminhando. E, em útima analíse, o futuro da Autonomia dependerá sempre de nós.
Por isso, sejão quais forem as razões táctico/políticas, aceitar que outros órgãos em Lisboa queiram usurpar poderes legislativos conferidos ao povo ilhéu é admitir que a Autonomia tem retrocesso. E não tem. Não pode ter. Mas se devemos lutar pela defesa da Autonomia contra os que a atacam de fora, também o devemos fazer contra os que a mutilam no seu interior. Assim, as recentes decisões da maioria laranja, que desprestigiam o primeiro órgão da Autonomia, a Assembleia Legislativa da Madeira, retirando-lhe a sua função de confronto de ideias e opções para a gestão do nosso futuro comum, é um duro golpe na Autonomia. Teremos mais força e legitimidade para exigir dos outros, quanto maior for o exemplo que demonstrar-mos. A subalternização da Assembleia ao Governo é má para a Autonomia. Significa que pode ser perigoso dar mais poder à Madeira. Porque significa que esse poder pode ser usado em benefício de um partido ou de um grupo de interesses. E não, como era a aspiração dos nossos antepassados, em proveito comum.
Com as alterações introduzidas no Regimento e com a sua postura arrogante, a maioria do PSD usa o Parlamento Regional como se fosse propriedade do seu partido e que em nome e por conta deste devesse existir. Não foi para isso que se lutou pela Autonomia. Não foi para isso que se fez a Assembleia.
Este exemplo coloca, ainda mais, de pé-atrás os centralistas e dá-lhes argumentos para impedirem o aprofundamento da Autonomia. Ora, isso é precisamente o que o Povo madeirense não quer. Isso é fazer "o jogo do inimigo". Negar ao órgão máximo da Autonomia o exercício livre da função para o qual foi criado, é amputar a Autonomia e ofender todos os madeirenses. Os de ontem, os de hoje e os de amanhã. Assim não se faz a Autonomia, mas se caminha a passos largos para a sua destruição.