quinta-feira, março 10, 2011

Geração Fantástica

A geração nossos bisavós lutou na Flandres durante a Grande Guerra. Sobreviveu à Grande Depressão de 1929, e viu o seu país viver em instabilidade política permanente até o golpe militar que abriu caminho à ditadura fascista.

A geração dos nosso avós cresceu no Portugal de Salazar. Dominado pelo Fado/Futebol/Fátima. Onde não havia liberdade, e a PIDE prendia e torturava. Eles atravessaram a Segunda Guerra Mundial e viveram com a ameaça Nazista. Viram os seus filhos partirem para o Ultramar ou fugirem de um país que não lhes dava futuro. Éramos pobres, atrasados e isolados.

Os nosso pais foram enviados para a Guerra no Ultramar. Uma guerra sem razão. Que eles não percebiam, nem queriam. Jovens, como nós, que só queriam continuar a sua vida, estudar, trabalhar, formar família, eram arrancados aos seus entes queridos e enviados para uma África que não conheciam e da qual podiam não voltar. Muitos fugiram (deram o “salto”) para outros países e foram viver em condições miseráveis, fazendo o trabalho que mais ninguém queria fazer.

Foram eles, que numa bela manhã de Abril, libertaram este país do jugo fascista. Foram eles que voltaram à rua e às armas para impedir uma ditadura comunista. Foram eles que voltaram estropiados, marcados pelo terror da guerra, com cicatrizes físicas e emocionais que nunca se apagaram. Foram eles os milhares de “retornados” que perderam tudo e começaram a sua vida do zero. Foram eles que, bem ou mal, nos legaram o que hoje temos. Fora eles que nos tornaram Europeus, quebrando o isolamento tacanho de Salazar. Que nos deram a oportunidade de estudar, de termos melhores cuidados de saúde, de termos assistência na doença, de sermos um exemplo mundial na erradicação da mortalidade infantil, de termos liberdade, de podermos viajar, de termos paz e segurança. Eles cometeram muitos erros. É verdade. Mas tudo isto era também novo para eles. Fizeram o que podiam, como podiam. E a verdade é que nos deram melhores condições de vida do que eles tiveram, ou os seus pais e avós.

A nossa geração recebeu a liberdade de mansinho. Foi nos sendo dada pelos nosso pais como um valor adquirido. Certo. Seguro. Interiorizamos.
O terror da guerra foi para nós vivido em histórias contadas aos serões por um tio que “esteve no mato a combater os turras”. Uma história de bravura, ilustrada por fotos a preto e branco e aquela tatuagem que dizia “Angola 73” que nós achávamos pirosa. Não sabendo que o homem que se tatuou assim, olhou de frente a morte em cada missão que cumpriu em terras do Ultramar.
Para nós a escola e depois a faculdade foi algo perfeitamente natural. Nem compreendemos por raio chorou a nossa mãe quando soube que tínhamos entrado no curso. Somos a primeira geração nos últimos 100 anos que não teve de enfrentar nenhuma guerra. Somos os primeiros a não ser obrigados a cumprir serviço militar. Somos a geração da Internet, das auto-estradas, dos telemóveis, dos computadores, da tv por cabo e das viagens low cost. Vivemos mais e vivemos melhor agora do que há 30, 60 ou há 90 anos.

Eu sei que é difícil estagiar sem remuneração. Eu tive de fazer o estágio de advocacia durante 2 anos e trabalhar em telemarketing ao mesmo tempo para pagar a renda, e ao fim de semana fazia inquéritos para ganhar mais algum dinheiro. É difícil trabalhar fora da profissão que escolhemos. Eu trabalho desde os 16 anos. E já fiz muitas coisas. Fui mensageiro, bagageiro,, recpcionosta, servi à mesa, limpei piscinas e muitas outras coisas. Eu sei que é difícil viver a recibos verdes. Eu estou a recibos verdes desde que deixei a faculdade. Eu sei que é difícil trabalhar fora de casa. Eu trabalho metade do meu tempo em Angola. E outra parte em Lisboa. É duro estar longe da família. É duro ver o nosso filho crescer ao longe, sem poder abraça-lo. Tudo isto é duro e porventura algo injusto. Talvez.
Mas a solução não é se queixar. Não é arranjar desculpas. Nunca foi. A solução é trabalhar mais, lutar mais, acreditar mais. Eu acredito que podemos fazer mais e melhor. A nossa geração tem mais informação, melhor preparação e mais instrumentos. Somos inteligentes. Somos cultos. Temos Mundo. Falamos línguas estrangeiras. Somos europeus. Temos pós-graduações, mestrados e doutoramentos. Se realmente quisermos mostrar que é possível fazer melhor, só há uma forma: fazendo melhor. É esse o desafio da nossa geração, perceber que temos tudo para vingar e que o futuro não depende de mais ninguém. O futuro, o nosso e dos nossos filhos, será aquilo que nós quisermos que seja. Porque nós somos a Geração Fantástica!

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