quarta-feira, março 23, 2011

Episódios de sofreguidão

José Lello: (...) Ainda o Governo não tinha completado um ano de legislatura, e já o inexperiente e impaciente líder do PSD pedia ao Presidente da República para dissolver o Parlamento até 9 de Setembro. Mas tal não era oportuno para o Presidente que se pretendia eleger. Era preciso não atrapalhar a eleição de Cavaco, que até teve a oportunidade de criar a ideia de ser o mediador indispensável para garantir a aprovação do orçamento, não obstante ser essa uma competência da Assembleia. É muito interessante que, menos de três meses depois, a resolução da crise fique apenas à responsabilidade dos partidos. Como não deixa de ser surpreendentemente interessante que, passadas duas semanas após a tomada de posse de Cavaco Silva, Passos Coelho já se sinta à vontade para, finalmente, abrir a tão desejada crise política.

Mas há outros contornos curiosos nestes episódios de sofreguidão. Pacheco Pereira, por exemplo, dizia há poucas semanas que muita gente no PSD já andava a distribuir os lugares no Estado. E eis agora que o pressuroso Paulo Portas já se vê como ministro de qualquer coisa, como se fosse essa a ordem natural do mundo, mesmo que o Governo ainda esteja em funções e a direita ainda não tenha ganho as eleições. E que dizer do despudor de muitos altos responsáveis do PSD que, sem esconderem a impaciência, já antes do Verão não se coibiam de dizer para quem quisesse ouvir: "Ou deitamos isto abaixo agora ou logo a seguir às presidenciais". Portanto, os jovens turcos estão a cumprir o seu programa de destruição massiva e a concretizar a ameaça de crise que sempre mantiveram bem acesa. Podemos, por isso, perguntar: que escrúpulo democrático orienta esta direita portuguesa? Que poderá acontecer a Portugal, mercê da espiral eleitoralista para onde o querem levar, circunscrito à mera gestão institucional e a um hiato governativo de vários meses.

E Passos Coelho, que tipo de líder é este que não consegue controlar nem aguentar a pressão sôfrega dos seus apoiantes ex-JSD, inebriados com o cheiro a poder e sem cuidarem que esta irresponsabilidade pode ter consequências muito duras para todos os portugueses? Que troca a crise no país, pela paz no seio do seu partido?

O raciocínio é simples. Se as taxas de juro têm subido mesmo com o Governo em funções e no exercício de todas as suas atribuições governativas, imagine-se com instabilidade política. Portanto, o mais certo é a dívida tornar-se rapidamente insuportável, com a necessidade do FMI intervir, injectando os milhares de milhões que precisarmos. Mas, como é óbvio, vai apresentar exigências intoleráveis e medidas mais graves que ainda mais afectarão o quotidiano dos portugueses e arrasarão a essência do Estado social, o que irá certamente ao encontro da agenda neo-liberal do actual líder do PSD. Adivinhem quem irá pagar por esta irresponsabilidade?

Sem comentários: