terça-feira, março 29, 2011

Eles lá sabem porquê...

Mário Soares: (...) O Parlamento, reunido para debater o chamado PEC IV, resolveu, numa estranha coligação negativa, composta pelos dois partidos do centro direita (PSD e CDS-PP) e pelos dois partidos da esquerda radical (PCP e Bloco de Esquerda), votar, sem hesitação, contra o PEC IV, imposto por Bruxelas, e derrubou o Governo, Sócrates. (...) Sócrates, apesar de demissionário, foi excepcionalmente bem recebido pelos seus colegas da União. Há muito tempo que a imprensa internacional não falava tanto de Portugal nem do Governo português, pelas boas e pelas más razões. O que acresce as responsabilidades do futuro primeiro-ministro, seja ele quem for. Passos Coelho também foi a Bruxelas. Ouviu e conversou com a chanceler Merkel - que não foi especialmente doce para com ele - e com alguns outros correligionários do Partido Popular Europeu. Percebeu, seguramente, que a política que vai ser obrigado a seguir não será substancialmente diferente da política proposta, antes da crise, por Sócrates, se não for mesmo mais impopular ainda. Será a política conservadora europeia no seu pior. Foi isso que os partidos da esquerda radical votaram no Parlamento de Lisboa. Eles lá sabem porquê... A perspectiva de aumentar o IVA - que Passos Coelho anunciou, como teste - deve tê-lo convencido, pelas reacções negativas que provocou, que terá escolhido o pior momento para desencadear uma crise política, desejada por alguns, com certeza, mas cuja oportunidade o eleitorado em geral não compreende nem aprova. Nem pela maioria dos empresários que temem, com razão, a recessão que está à vista... É certo que o líder do PSD deve ter sido muito pressionado pelos seus correligionários, ávidos de poder, que não escondem, aliás, que não o suportam e o querem substituir, uma vez realizada a sale besogne, como dizem os franceses. Isto é: o trabalho mais impopular e difícil. Como outros queriam "fritar em lume brando" José Sócrates. Mas ele não os deixou fazer... E agora? Vamos ter eleições, que se anunciam para fins de Maio, princípios de Junho. E até lá? Vai ficar o Governo demissionário, sem autoridade, a fazer o menos possível. Porque não é lógico que faça, como é óbvio, a política que o Parlamento rejeitou. Este é um dos imbróglios em que estamos metidos. Dois meses decisivos, sem que ninguém saiba para onde vamos. Foi, por isso, que me permiti alertar o senhor Presidente da República para o perigo de cairmos num vazio de poder. Mas, ao que disse, parece que "foi tudo muito rápido, e não teve espaço de manobra para intervir". (...) Convenhamos, caros leitores, que não se podia ter encontrado pior momento para a demissão do Governo e para marcar novas eleições, que não irão - oxalá me engane - clarificar politicamente quase nada. Um dos partidos do arco governativo, como se diz, o PSD ou o PS, irá ganhar as eleições. Por maioria absoluta? Seria bom, para o País, se assim fosse, porque daí resultaria uma pequena clarificação. Mas suponho que, provavelmente, isso não venha a acontecer. O eleitorado, especialmente num momento tão grave para os portugueses, é suficientemente maduro para não "querer meter os ovos todos no mesmo cesto", como diz o povo. (Continua)

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