sexta-feira, fevereiro 25, 2011

Memória de galinha

Num tempo de fartura de acesso à informação, como este em que vivemos, é estranho testemunhar a aparente falta de memória que os indivíduos demonstram relativamente a coisas que se passaram há pouco tempo.

Em 2007 os preços do petróleo atingiram valores insuportáveis e em consequência disso foram usados alimentos para produzir combustiveis, levando o preço destes bens a valores insuportáveis para uma parte considerável do mundo.
Os custos para os países fortemente importadores de petróleo, como Portugal, agravaram de forma significativa o défice comercial e o endividamento externo.

Nesta linha, a aposta em energias renováveis, como o vento, o solar e as barragens, seriam a linha lógica para diminuir a nossa crónica dependência energética.
Apesar dessa aposta parecer lógica, não faltou quem, em tempo de baixa do preço do petróleo (resultado da recessão económica mundial) afirmasse que a aposta nesses tipos de energia traziam sobre-custos para o tecido económico nacional.

Com a recuperação económica e aumento da procura por produtos petrolíferos, os preços do petróleo voltaram a subir, bem como os preços dos bens alimentares.
A subida dos preços dos alimentos estão em grande parte na origem das instabilidade social que está neste momento a atingir os países do norte de África. E essa instabilidade está a ter um efeito de retroalimentação no aumento dos preços do petróleo.

Para agravar toda esta situação está o facto de neste momento as necessidades mundiais se situarem num patamar superior ao que estavam antes do pico do petróleo em 2007, uma vez que os países emergentes com a China à cabeça continuaram a crescer de forma significativa, apesar da recessão mundial.

Lembro-me de em 2008 ter afirmado que o petróleo apenas estava em valores tão baixos devido à recessão, e que inevitavelmente os valores voltariam a subir com a recuperação económica, voltando assim a provocar de novo uma recessão, num ciclo que só seria possível sair, alterando profundamente as fontes de energia bem como a forma com gastamos a energia.

Quem me conhece sabe que sou pouco "ecofundamentalista". Não defendo a utilização de energias renováveis por questões ecológicas mas sim económicas, e por uma questão de, no caso concreto de Portugal, podermos utilizar melhor as energias que temos disponíveis em detrimento daquelas que temos de importar.

Espero que a crise que aí vem, e que espero (mas não acredito) não seja muito severa, carimbe definitivamente na cabeça dos nossos decisores a necessidade de acelerarmos o nosso paradigma energético. Todo o tempo que desperdiçarmos será dinheiro deitado fora.

1 comentário:

lidia disse...

O problema das energias renováveis é que só têm, neste momento, interesse ecológico. Economicamente e por razões técnicas não conseguem competir com o petróleo. Efectivamente existem mas à custa de fortes subsídios públicos. As empresas privadas que as desenvolvem e produzem só o fazem porque são altamente subsidiadas. Não correm qualquer risco financeiro. Portugal está a pagar um custo enormíssimo por este pioneirismo sem que isso venha a trazer qualquer vantagem em relação aos outros países. Pode estar a contribuir para que o mundo se vá preparando paulatinamente para o pico petrolífero mas tal atitude só o prejudica.
As energias renováveis para Portugal são um crime económico...Sendo realista equivaleria, no campo ético, a uma nação que antecipando o fim da escravatura abdicasse da utilização de escravos 50 anos antes de todos os seus concorrentes comerciais/económicos e para poder competir no preço com esses subsidiasse o preço final dos produtos agrícolas com dinheiros públicos.

amsf