sexta-feira, maio 28, 2010

Afinal o papão existe

O papão-banqueiro anda à solta.
Afinal parece foram os bancos que endividaram o Estado, não os governos. Afinal foram os bancos que sobrendividaram as famílias, e não estas que pediram empréstimos que não podiam pagar. Ufa!! Ainda bem. Estava a ver que finalmente este país ia cair em si. Mas não. Esta tudo bem e podemos continuar. Afinal é muito simples: A culpa da nossa irresponsabilidade não é nossa. É dos bancos, dos especuladores e quicá da Abelha Maia.

3 comentários:

Luís disse...

Paulo,
Com a nossa entrada no Euro, os bancos viram uma oportunidade fabulosa para obterem lucros nunca antes conseguidos. De um momento para o outro, o negócio ficou muito mais simples: bastava comprar dinheiro a um preço baixíssimo nos mercados interbancários internacionais e depois vendê-lo com uma confortável margem de lucro, seduzindo o maior número de clientes possível, promovendo crédito fácil e barato.
Os bancos portugueses inundaram o país com euros vindos do exterior e criaram uma incrível inflação no mercado da habitação. E fizeram-no com a plena consciência de que, mais cedo ou mais tarde, isto iria acabar mal. Agora acabou. Os accionistas dos bancos aproveitaram 10 anos de lucros fáceis e astronómicos e agora cruzam os braços e dizem “não há mais dinheiro, temos pena”.
Enquanto isso, ficámos com muitos milhares de milhões de euros de dívida externa e, por isso, passamos a enviar milhares de milhões de euros para fora do país para reembolsarmos os empréstimos e remunerarmos as carteiras de investimentos dos estrangeiros.
E sim, em grande parte, foram os bancos que ajudaram ao sobre endividamento das famílias, dado que foram eles que criaram um brutal aumento do preço das habitações. De um momento para o outro, as famílias viram-se obrigadas a endividar-se para o resto da vida para comprarem casa. Mas não havia problema, porque o crédito era fácil e a prestação era baixa.
Agora que “não há mais dinheiro”, os preços das casas vão cair a pique e vamos ver muitas famílias com patrimónios líquidos negativos (valor da dívida do crédito habitação superior ao valor do imóvel).
Nós fomos irresponsáveis, mas o típico português não sabia melhor. E quando digo o típico português, incluo também o Vítor Constâncio e quase toda a nossa classe política. Os banqueiros, esses são mesmo muito espertos.

Anónimo disse...

Luís escreveu:

"De um momento para o outro, as famílias viram-se obrigadas a endividar-se para o resto da vida para comprarem casa."

Parece-me que essa frase precisa de ser reescrita.

Seria mais assim:

De um momento para outro, as famílias tiveram a oportunidade de viver numa casa à qual não teriam tido acesso apenas há alguns antes.

Só falta dizer que os empresários que enriqueceram à custa da alavancagem que fizeram com o dinheiro fácil da banca não são culpados pela sua própria falência agora que o crédito "secou".

Quem inconscientemente não faz gestão de risco dos seus investimentos até pode ter muita sorte no curto prazo mas a médio prazo vai à falência...


amsf

paulo disse...

Luís,

longe de mim estar a defender os bancos. Aliás, eles não precisam os governos fazem bem esse papel.

Claro que foram os bancos que quase forçaram a loucura do crédito. E são também culpados. Mas fizeram coisas bem piores nos mercados de valores, que para agora não interessa.

O que eu quero deixar claro é que não é responsável que os governos que protegeram e protegem os bancos nos seus abusos não sejam responsabilizados e, por outro lado, que empresários e trabalhadores que recorreram a crédito que não podiam pagar também não o sejam.

Os bancos fazem o papel deles. São ganaciosos? Concerteza. Mas são os governos que devem impôr limites a essa ganância e as pessoas que se devem defender.

Ora, o que se viu foi exactamente o contrário. Dez milhões a viver a crédito e os sucessivos governos a alimentar o sonho. Agora que chegam as contas o "papão" é o banco.