domingo, março 07, 2010

O último funeral do meu tio Gilberto


Hoje fui a dois funerais. O do meu tio Leonel o do meu tio Gilberto. O tio Leonel morreu há alguns anos. O Gilberto morreu apenas ontem.
Quando o primeiro faleceu, encontrava-me fora da Madeira e não tive a oportunidade de me despedir. Fi-lo hoje no funeral do Gilberto.
Ficaram juntos no cemitério. Ali, quase lado a lado.
Tenho a certeza que o Gilberto não quereria outro lugar que não fosse ao lado do seu irmão favorito, o Leonel. Assim aconteceu.
Paz às vossas almas.

Não conheci ninguém que não gostasse do tio Gilberto. As histórias em torno da sua pessoa são infindáveis. Vou apenas contar algumas.

O Gilberto tinha um problema de expressão que tornava muito difícil à generalidade das pessoas entenderem o que ele queria dizer.
Durante os meus primeiros anos de vida, o tio Gilberto vivia em minha casa e era hábito falar comigo, como é natural. Acontece que eu comecei a entendê-lo melhor que toda a gente. A linguagem do Gilberto era para mim uma segunda linguagem (ou primeira) e durante muito tempo fui capaz de entendê-lo sem qualquer esforço. Esta facilidade de expressão que o tio Gilberto tinha comigo levou-o a desenvolver por mim um enorme carinho. Até ao fim sempre fui o seu "panine", que significa Tininho, que era como toda a família me chamava quanto era pequeno e que é o diminutivozinho de DiamanTINO. Ainda hoje algumas pessoas, como por exemplo o meu irmão, me chamam panine. É o legado do Gilberto para a forma carinhosa como algumas pessoas me tratam.

O tio Gilberto adorava a adrenalina da matança do porco. Tinha medo do porco que se pelava mas nunca se recusou a participar. Achava que era sua obrigação e por isso não se esquivava. O Gilberto sempre foi um homem de trabalho.
Um dos seu melhores amigos, o Sr. Eleutério, o feiticeiro, todos os anos tratava de um par de porcos para matar na festa, e como era habitual chamava o tio Gilberto para participar.
O feiticeiro fez a promessa que um dia, se o Artur (era assim que o feiticeiro chamava ao meu tio) falecesse, deixaria de ter porcos.
Este ano o porco do feiticeiro adoeceu e faleceu, numa altura em que o meu tio já estava bastante doente. O feiticeiro disse-me: "Sr. Rodrigues isto é um sinal. Se o Artur não melhorar, não volto a ter porcos". E não voltará a ter.
São coisas de feiticeiros. Não temos de compreender.

Era conhecido de toda a gente o fascínio que as multidões exerciam sobre o tio Gilberto. Qualquer evento da freguesia onde houvesse muita gente, desde Arraiais a funerais, lá estava o tio Gilberto.
Acredito que o tio Gilberto raramente viu nos funerais o peso da perda que a sociedade habitualmente vê. Para ele, era apenas uma maneira de poder estar com muita gente conhecida.
Hoje foi o seu último funeral. O seu próprio. Espero que tenha gostado da multidão de pessoas que o estimavam e que lá estiveram para se despedir.

P.S. - Obrigado Eduardo por recordares o meu tio.

8 comentários:

BaBy_BoY_sWiM disse...

Não tens que agradecer!

Foi alguém que marcou a minha vida, e recordarei toda a minha vida!

Grande abraço e muita força, as minhas condolências...

T@nia_Sofi@ disse...

Senti uma certa nostalgia qd a minha mãe me disse q o sr. Gilberto tinha falecido. Oxalá q descanse em paz. Esse homem era uma referência na Boa Nova, Choupana e Bom Sucesso. Todos o conheciam e respeitavam. O q escreveste e também o Eduardo descreve bem o sr. Gilberto.
As mais sinceras condolências à família....

TÂnia Sofia Gonçalves

Islander disse...

Que em paz descanse...
Também minha mãe é da Choupana e conhecia-o.

Condolências à família

Michelangelo disse...

Tino,

Um abraço e as minhas condolências.

Tino disse...

Obrigado a todos.

Anónimo disse...

Tino.
Antes de mais os meus sentimentos pela perda. É sempre dificil perder alguém, especialmente alguém que fala connosco uma linguagem especial. Conheci o teu tio. Fez parte da minha infância e da dos meus irmãos mais velhos. Lembro perfeitamente do Gilberto a subir e descer o Caminho do Meio junto`às "vendas" que existiam na altura,não sei se ainda existem...Para sempre irá povoar o meu pensamento já que fez parte da época mais feliz da minha vida, a infância. Descanse em paz!

Mara disse...

As minhas condolências.
Conheço o Gilberto desde miúda e não conheço ninguém que não gostasse dele. Com o seu jeito singelo conquistou toda uma comunidade e como tantos outros ontem prestei-lhe uma última homenagem.

Que descance em Paz.

Mara Teixeira

il _messaggero disse...

Caro Tino,

Deixar antes de mais, as minhas sentidas condolências e lamentar a perda. É sempre duro perder alguém próximo.

Até eu que estou longe, não pude deixar de ficar incomodado com a notícia.

A notícia da perda do "Giberto", pessoa muito estimada e acarinhada nas zonas indicadas, conforme já foi aqui escrito, despertam em mim memórias de infância que há muito já não me recordava.

Fosse a passar pelo Bom Sucesso, fosse junto à casa dos meus avós e tios e primos paternos na Choupana (muitos aliás vizinhos do mesmo), uma das imagens que sempre retive era a forma como subia e descia o Caminho do Meio, sempre com um sorriso nos lábios, para gáudio dos "catraios", que como eu na altura passavam por ele.

Paz à sua alma!

Abraço
aires aka il_messaggero