Segunda-feira, Novembro 30, 2009

O desbragado do Churchill nunca foi escutado?

Ferreira Fernandes no DN:

Vamos a um supor. Alguém me diz: "O primeiro-ministro foi apanhado numa escuta e por causa dela foi indiciado de atentar contra o Estado de direito." Mas o primeiro-ministro ser indiciado por atentar contra o Estado de direito é o quê? (...)

Vou continuar com a suposição. Se calhar, o que o primeiro-ministro disse, em conversa privada, é que o presidente da Assembleia da República, que é seu superior na hierarquia do Estado, é um filho-da-mãe. Acreditem, se o primeiro-ministro disse isso, mesmo em conversa privada, é bem possível que um magistrado encontre na lei a justificação para o acusar de atentar contra o Estado de direito. Lembrem-se, houve quem acusasse a ministra da Saúde Leonor Beleza de ter matado velhinhos "com dolo". Não só a acusasse por a sua política de restrições orçamentais ter podido causar mortes, mas que essas mortes foram "com dolo" - isto é, terem acontecido por ser vontade da ministra matar. (...)

Lembraria, por exemplo, Winston Churchill e o rei Eduardo VIII. Sabe-se, por testemunhos terceiros, a fraca opinião de Churchill (então deputado) sobre o rei Eduardo VIII, que abdicou, em 1936, para se casar com uma divorciada americana. E conhece-se a linguagem desbragada de Churchill quando não gostava de alguém. Haverá gravações de escutas de Churchill (já havia telefones) ou cartas pessoais suas com insultos ao rei? Por exemplo, "filho-da-mãe", ou pior? É que, se houve, e tivessem na altura sido conhecidas, era o fim da carreira de um dos maiores estadistas do séc. XX. Até a II Guerra Mundial teria tido, talvez, outro rumo.
É só para lembrar a importância dos contextos.

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