O amigo Miguel Fonseca vê nas politicas neo-liberais do governo de Sócrates a razão da erosão do eleitorado que constituía a base de apoio do PS.
Não duvido que o Miguel, que anda há muito mais tempo nisto que eu, esteja completamente certo, dado o seu conhecimento da base de apoio que ao longo do tempo foi mostrando simpatia pelo PS.
No entanto, há algo nesta constatação que me incomoda.
Seria aceitável que o PS beneficiasse de tal modo a sua base de apoio, que nada sobrasse, em termos de apoio para a restante sociedade? Parece-me que não.
Um governo de esquerda, como eu a vejo, governa para que toda a sociedade, e principalmente os mais frágeis, tenham acesso a um conjunto de bens essenciais, dos quais incluo a saúde, a educação, a assistência social e a justiça.
Um governo de esquerda luta contra as desigualdades, proporcionando igualdade de oportunidades, transferindo bens dos mais abastados para aqueles que por herança ou por contingências da vida, fazem parte da parte mais frágil da sociedade.
E os professores e funcionários públicos onde encaixam nisto tudo?
Deve um governo de esquerda dedicar o seu trabalho a aumentar os seus bens e conforto, ou pelo contrário deve exigir deles um maior esforço, de modo que o estado produza bens para combater desigualdades, e não para se alimentar a si próprio?
A resposta a esta questão não é evidente, para quem se diz de esquerda!?
Alguns neo-liberais deste governo de Sócrates fizeram mais pelo combate às desigualdades do que alegres poetas que só têm palavras para dar.
Devido a Correia de Campos, neste momento as listas de espera são mais pequenas, existem mais 2 Milhões de pessoas com acesso a unidades de saúde familiar, e Portugal passou a ser o pais do mundo com a mais baixa taxa de mortalidade infantil (Lembram-se do que disseram do fecho das maternidades).
Na educação, e devido a Maria de Lurdes Rodrigues, inverteu-se a tendência decrescente de alunos, muitas pessoas viram reconhecidos os seus conhecimentos, e muitos jovens passaram a ter acesso a um computador e à internet (não apenas os ricos).
Na segurança social, muitos foram os idosos com fraquíssimos recursos que passaram a ter acesso a um complemento solidário e que neste momento têm acesso a medicamentos genéricos inteiramente gratuitos.
Para um governo neo-liberal não está nada mal.
É verdade que muitas destas medidas não foram bem explicadas, quer pelo PS a nivel nacional, quer por nós cá na Madeira, mas uma coisa é certa, este é o governo que mais se aproxima da minha visão de esquerda.
No passado António Guterres seguiu a estratégia defendida pelo Miguel Fonseca, tornando todos os professores e funcionários públicos muito mais felizes, mas no fim, nem o ensino melhorou, nem os serviços públicos melhoraram e como corolário de tudo isto Guterres não ganhou as eleições. Pensem nisso.
2 comentários:
Estas eleições, ainda que afectadas pela baixa participação, vieram mostrar um cartão amarelo às políticas seguidas pela esquerda moderada europeia, na sequência daquela construção que se designou de "Terceira Via".
Há que notar que a social-democracia europeia consolidou a sua reputação e os seus ganhos com a criação e consolidação do Modelo Social Europeu (ainda que difuso e diferente de país para país, consagra ganhos que são comuns a todos).
Com a queda do muro de Berlim e a consequente e aparente vitória e supremacia do paradigma neoliberal, os partidos de esquerda, provissem estes da esquerda radical ou da esquerda moderada ou social-democrata, tiveram que repensar e se readaptar ao novo contexto. Com o aparente unamismo formado, abriu-se caminho a que estes partidos da esquerda moderada, passassem a adoptar sem receios ou complexos certas premissas afectas e defendidas pelo campo da centro-direita.
Blair, seguindo a tendência de Clinton, condensa estas nova aproximação sob a forma da Terceira Via, servindo um modelo que foi copiado por muitos outros partidos europeus dentro do mesmo campo, incluindo o PS português.
Por outro lado, temos de ter em conta que 60% da legislação aprovada na AR tem origem em normas emandas pela UE. Ora. conhcendo as linhas mestras da mesma, creio que fica claro a própria natureza neoliberal da União Europeia e das instituições que a constituem.
Estes dois factores, juntamente com a resposta dada ao fenómeno globalização, vêm por um lado fazer erodir os direitos sociais anteriormente alcançados devido a acção governativa da esquerda moderada, sendo que esta, para se adaptar ao novo contexto, acaba por adoptar posturas e políticas que acabam por ir contra os mesmos direitos.
É esta ambivalência que ajuda a explicar em parte a derrocada da esquerda moderada nestas eleições, num contexto de forte crise.
A esquerda moderada ou o centro esquerda, acaba por ser vista, por muitos dos antigos sectores de apoio, como mera percursora de políticas neoliberais defendidas pelo centro-direita e direita. E a verdadeira distinção que existe entre um campo e o outro é a existência de medidas de atenuação para as desigualdades geradas (tomadas meramente como recurso).
Assim, num quadro europeu e com instituições que defendem abertamente o neoliberalismo, urge à esquerda democrática, não a tomada de posições ou medidas meramente atenuantes ou de recurso, mas sim na prossecução de medidas preventivas que combatam abertamente a origem dessas desigualdades e a ausência de efectiva desigualdade de oportunidades.
Creio que olhando às medidas tomadas por este governo, verificamos a existência dos dois tipos das mesmas. No entanto, creio que a aposta da educação deveria ser bem mais forte e apoiada. A redução de fundos das universidades contradiz esta premissa. Por outro lado, se é verdade que considero positiva a avaliação de professores, creio que não se pode levar a cabo reformas sem ter em conta o que pensa a maioria dos profissionais do sector. Assim, não háboa medida que resista.
Mas claro, aqui já entramos na linha ténue entre manutenção de um rumo e obstinação autista, algo que pode muito bem ser explicado pela existência de uma maioria absoluta (obviamente aqui entraríamos por outras explicações ;).
Concordo quase na totalidade com os argumentos apresentados , acho que o principal problema do governo Sócrates , foi o de fazer passar a mensagem do muito de positivo que foi feito e penso que isto também deverá servir para demonstrar que afinal ao contrario do que dizem os partidos da oposição este não era um governo que tinha
a imprensa sempre a seu favor e em que as medidas eram apenas de marketing . Penso igualmente que as medidas contra os funcionários públicos , nalguns casos podem ter sido um pouco exageradas como em relação aos professores , mas que no essencial foram justíssimas e claramente apoiadas pela sociedade civil que não percebia o porquê de tantos privilégios injustificados, num país que infelizmente para todos nós não é rico .
Jacinto Gouveia
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