sexta-feira, setembro 07, 2007

Para ir lembrando

Era o Verão de 2001 e o PSD preparava a sua rentrée. A preocupação central de Durão Barroso era não se sair muito mal nas autárquicas que teriam lugar no fim desse ano, para conseguir segurar a liderança do partido. Não lhe passaria pela cabeça que no Verão seguinte já seria ele o primeiro-ministro. Muito menos que chegaria a presidente da Comissão Europeia dois Verões depois desse.

Para ir fazendo política, Durão Barroso tinha para apresentar um novo slogan e um logótipo. O slogan rezava "PSD 100% Consigo" e o logótipo era uma espécie de laranja estilizada. Mas estas coisas não saem baratas. Segundo o último Expresso, foi por este slogan e este logótipo que uma empresa chamada Novodesign, de Lisboa, cobrou ao PSD um pouco mais de 233 mil euros. Escrevo 233 mil euros e não 46 mil contos porque, embora o novo slogan e logótipo tenham sido apresentados no tempo em que ainda usávamos notas e moedas de escudos, a factura só foi paga em Março de 2002, após a introdução das notas e moedas de euro.

Entre uma coisa e outra, a política nacional tinha mudado: o PSD ganhara as câmaras municipais mais importantes do país, o Governo PS caíra, novas eleições legislativas estavam à porta. Ora, poucos dias antes destas eleições, as sondagens já davam como certo que Durão Barroso seria o primeiro-ministro seguinte. E foi nesse momento que a Somague, uma empresa de construção, se convenceu de que seria boa ideia pagar à Novodesign uma conta de 233.415 ?

Como sabemos que a conta que a Somague pagou era, na verdade, do PSD? Graças à mão de alguém da Novodesign que escreveu "por serviços prestados ao PPD/PSD" nas facturas correspondentes, na ignorância de que tal pagamento fosse ilegal. Quando se cobra uma fortuna para pensar em slogans manhosos, é inevitável, suponho eu, que nos tornemos um pouco desleixados. Mas, se não tivesse havido essa imprevidência, hoje os portugueses não saberiam que aquele "100% Consigo" foi pago a cem por cento por uma empresa.

Durão Barroso, que era o presidente do partido, diz que o assunto é cem por cento nada com ele: quem tratava das coisas era o secretário-geral. José Luís Arnaut, que era o secretário-geral, contradiz Durão Barroso: quem tratava das coisas era o secretário-geral adjunto, que está impossibilitado de falar por ter sofrido um acidente vascular cerebral. Nós acreditamos nisto porque Durão Barroso é um líder. Ora, como sabemos, liderar significa exibir novos logótipos e slogans sem querer saber de onde vem o dinheiro que paga essas coisas. Liderar significa achar normal que o partido pudesse receber presentes de duzentos mil euros sem que o seu presidente fosse informado de tal caridade. Liderar significa, em última análise, passar a batata quente para o fulano que teve um AVC. Não há dúvida: são grandes homens.

Rui Tavares no Público

1 comentário:

Anónimo disse...

vamos lembrar também o advogado flamista, ex-psd, que o ps tem por perto