Vejo que até pessoas inteligentes aceitam (sem pensar mais profundamente nas implicações e motivações desses agentes) como válida e correcta a explicação de que é preciso arranjar formas de "contornar a lei e a burocracia". Assim, estaria explicada a forma reiterada e grosseira com se violou as mais diversas leis e regulamentos. E tal deveria ser aceite como normal, desejável e não indícia mal nenhum. Pois é exactamente ao contrário. Desejo-vos com a explicação de quem é especialista no assunto:
"(...) A corrupção surge como resultado final de um processo administrativo de decisão, através do qual os agentes de suborno e os subornados, compram e vendem um poder decisório em troca de benefícios privados. Quando a lógica da corrupção toma conta dos serviços, acaba a distinção entre interesse público e interesse privado. Todos os actos passam a ser geridos pela lógica do lucro fácil, do poder arbitrário, do caciquismo, da cunha e do clientelismo.
O acto corrupto torna-se possível pela manipulação - alimentada muitas vezes pela burocracia rígida dos serviços - das regras e das leís, de forma invisível, graças a pactos de silêncio e opacidade entre o corruptor e o corrompido.
No fundo, a aplicação da velha máxima de que "a lei é rígida e a práctica é mole", transforma-se na mola real dos mecanismos de corrupção. (...)"
Maria José Morgado [Procuradora do MP] em "Fraude e Corrupção em Portugal"
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