Jardim declarou "guerra" a Sócrates, na esperança que o cheque engorde. Mas talvez agora vença o bom senso e a "lei do vazio" deixe de imperar na Madeira
Algures no Atlântico há uma ilha pacífica de onde partem, quase diariamente, gritos de guerra. Não é caso para alarme, que tais guerras não rivalizam sequer com as do Alecrim e Manjerona na "ópera joco-séria" que António José da Silva (o Judeu) escreveu em 1737 e o teatro imortalizou. Mas há, na insistência de tais gritos, o eco incómodo da maior e mais incompreensível impunidade. No final do mês passado, um sujeito que dá pelo nome de Coito Pita e que ocupa o cargo de vice-presidente do PSD madeirense bradou bem alto que ali, na ilha que julga comandar (logo abaixo de Alberto João Jardim, evidentemente), não se aplicaria "o raio da lei do protocolo" do Estado - que, aliás, deve ser hoje mesmo aprovada na Assembleia da República. Porquê? Por causa do lugar reservado aos representantes da Igreja Católica, que fica de fora da lista de precedências, mas participará como convidada nas cerimónias oficiais. O pretexto foi este, mas podia ter sido outro. O que fizeram então o sr. Pita e respectivos correlegionários? Aprovaram uma resolução que mantém o bispo da diocese madeirense em lugar de destaque no protocolo local e enxota o representante da República da lista de precedências. Porque "quem define o protocolo da Madeira é quem governa a Madeira, não é a República". Na Madeira, advertiu Pita, "é a lei do vazio que se aplica".
Pois bem, a "lei do vazio" levou a que o mesmo Pita, indignado desta vez com as declarações do ministro das Finanças, Teixeira dos Santos, sobre o estado das contas madeirenses, bradasse agora aos céus insulares: "Ainda podemos chegar a uma nova revolta do século XXI." Referia-se à chamada "revolta da farinha", ocorrida há 75 anos. Mas se o destemido Coito tivesse memória saberia que tal revolta, embora a pretexto de uma medida impopular da ditadura (a proibição de importação de farinha, aumentando o preço do pão), deveu-se sobretudo a factores económicos e a um reavivar do sentimento autonómico face à ditadura. A liderar, estiveram anarco-sindicalistas e comunistas, nomes que hoje a gerência autonómica execra. Como execra "o raio da lei do protocolo" do Estado ou "o raio" do próprio Estado, já que voluntariamente se aparta das suas leis, como se de território estrangeiro se tratasse. Com base neste pressuposto, Alberto João já declarou "guerra" a Sócrates, na esperança que o cheque engorde. Mas talvez agora vença o bom senso. A insular "lei do vazio", insultuosa e não política, tem de acabar. Para que a autonomia não seja um circo degradante.
Nuno Pacheco
in Público
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