quinta-feira, julho 27, 2006

Ladeira abaixo

A Madeira está entretida com T-shirts, não por ser Verão (o que seria normal) mas por serem consideradas vestes proibidas a jornalistas que se aventurem na assembleia legislativa local. É mais uma guerra artificial (destinada a dar brado, naturalmente) para esconder o verdadeiro dilema em que Alberto João Jardim se encontra, e que deverá explanar, com ferocidade de acossado, no próximo comício do Chão da Ladeira. A verdade é que, se o cheque e os subsídios não engordarem, a economia madeirense vai ladeira abaixo, presa à sua endémica dependência financeira. Mas Alberto João não se encontra nos seus melhores dias: Marques Mendes, líder do partido a que pertence, não o idolatra e Cavaco, ex-líder do PSD e actual Presidente da República, despreza-o. Daí as declarações inflamadas, os gritos, os insultos gratuitos e as falsas "causas" locais, como a da pretensa indecorosidade das T-shirts. É curioso que Alberto João, fato escuro e gravata, não teve pejo em condecorar, no seu palácio da Quinta Vigia, o futebolista madeirense Cristiano Ronaldo apesar de este se apresentar de T-shirt vermelha, jeans e ténis (tudo de marca, naturalmente). A foto, publicada na revista Caras e no site da GestiFute, não deixa margem para dúvidas. Ou seja: há T-shirts boas e T-shirts más. Quem escolhe? Jardim, plenipotenciário. O mesmo Jardim que, ao longo da vida e carreira, não tem mostrado problemas em ser grosseiro e ostensivamente mal-educado. Todos se recordarão de um carnaval em que ele, em cuecas, insultou publicamente a Assembleia da República ("que se f..."). E também se recordarão, certamente, de em 1994 ele ter acusado os jornalistas de fazerem "terrorismo económico" (por causa do cheque do continente, claro) e ter dito que "a sorte desses senhores é não estarem na União Soviética. Caso contrário, seriam simplesmente punidos com o fuzilamento". Por ele, confirmou, acharia adequado. O mesmo Alberto João que, dez anos depois, em 2004, referindo-se ao correspondente do PÚBLICO, Tolentino de Nóbrega (cuja coragem e profissionalismo não é demais realçar), ameaçou: "Esta gente passeia-se impunemente nas ruas da cidade sem que ninguém os castigue." Assim mesmo. A verdade é que Jardim diz tudo isto, insinua tudo isto e ninguém o castiga ou simplesmente adverte. Talvez seja por causa da "lei do vazio" que ele e os seus leais servidores defendem. Portugal, ali, é só bandeira, presidente, hino e justiça, como veio dizer Jaime Ramos, um dos candidatos a clone do líder. Na verdade é mais bandeira, presidente e hino do arquipélago, com a justiça discricionária de quem ali manda sem prestar contas a quem deve. Isto porque, no mesmo continente que vai passando cheques e fechando os olhos a atropelos legais e grosserias, ninguém até hoje soube concertar a palavra autonomia com a palavra dignidade. Jardim, político responsável, é desresponsabilizado quando o tomam por bobo (que ele não é) ou inimputável (que ainda o é menos). Se na assembleia local há regras, a pronto de se proibirem T-shirts (extraordinário, já que as rixas dos deputados locais são de uma grosseria inimaginável), também no comportamento dos líderes regionais devia haver regras. Políticas e cívicas, tarefa difícil na "pérola" insular.

Nuno Pacheco
in Público

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