"Há alguns meses, expus neste espaço fotos elucidativas que denunciavam o alvedrio vil subjacente à “Madeira Nova”, termo forjado pelo inominável arauto da social-democracia, entronizado pela sabujice pusilânime no congresso da Póvoa de Varzim. No ocaso de 2004, ascendi a uma ponte truncada, obra embargada devido à recalcitração de proprietários dos terrenos perante a iminência da expropriação. Meses depois, regressei à obra comatosa, depositária de milhões comunitários. A estrutura basilar da ponte mantinha-se inalterável, apesar de uma primeira habitação, sobranceira a uma estrada, ter sucumbido à voracidade do progresso. Parece-me, agora, que todos os óbices foram removidos, possibilitando a prossecução da obra. Os proprietários refractários dos terrenos e habitações resistiram, com tenacidade e quimera, a um Governo Regional (GR) despótico e falacioso, contra o qual não é possível manter altercações prolongadas. A justiça é onerosa, pelo que os contendores não estão munidos dos mesmos apetrechos, além de que todas as aspirações físicas do GR – enfatizo: todas! – garantem exequibilidade através do recurso a ardis jurídicos, com a complacência ilacrimável da justiça pútrida. Na sexta-feira passada, segundo o DN/Madeira, algumas habitações foram esboroadas pela insaciabilidade mefistofélica das escavadoras, cuja actividade foi viabilizada pela justiça, depois de o GR ter invocado o estatuto de “utilidade pública” da estrutura emergente.
A foto que acompanhava o artigo do DN espelha a torpeza destes autocratas legitimados pelo povo ignaro. Um dos moradores redimia um porco da habitação ainda hirta, enquanto, especificam testemunhas, outros, num afã agónico, procuravam extrair a parafernália possível de casas convertidas, pouco depois, num amancebamento de poeira e paredes que jaziam, dilaceradas. Os expropriadores exibiam sorrisos impudentes, jubilosos pela vitória do estalinismo transmudado de progresso.
A ocorrência desta sexta-feira, na Madeira, não pode coabitar com a penumbra. É imperioso, pela preservação de alguma sanidade democrática, denunciar Jardim e sequazes, impondo restrições à fruição iníqua da justiça. Mas o problema radica na alienação estúpida e estupidificante desta massa pastosa que deifica Jardim, perfilando-se entre os seus devotos membros homens como Nuno Rogeiro que, após uma visita à Madeira, exaltou a obra de Jardim, num paradigmático indício da leviandade pestilenta que vitima todos os viandantes que se deleitam com a opulência da “Madeira Nova”. Quando Estaline idealizou, e concretizou, o canal do Mar Branco, milhares de vidas foram sacrificadas pela megalomania de um indivíduo que suspirava pelo progresso. No Ocidente, paladinos obnubilados (ou mitómanos) do comunismo soviético enalteceram Estaline e os proveitos extraídos da sua índole visionária. Na dilatação e aprimoramento económico do Gulag, o desejo de prosperidade escudou a crueldade inverosímil, responsável pela prostração de milhões de vidas. Durante o período nazi, os médicos e cientistas que procuravam doar aos devaneios rácicos de Hitler um sustentáculo científico esgarçaram Homens vivos, sem anestesia, brandido o progresso da ciência como pretexto inexpugnável. Hoje, na verdade, a própria comunidade científica reconhece que o progresso é tributário de investigações fomentadas por nazis, apesar de incompatíveis com a ética. Na Madeira, há famílias escorraçadas das suas casas devido ao progresso galopante e cego. Um progresso com a conivência da justiça, representada por uma figura de olhos vendados. Naturalmente.
No congresso da Póvoa de Varzim, o legatário das estratégias estalinistas diagnosticou a disfunção de algumas instituições democráticas. Os aplausos sacramentais ecoaram, embora desconheça a que se reporta o delator seráfico. Galopante, em mim, é o progresso do nojo figadal por toda esta cáfila de lambedores. Não ilibo, também, o povo ululante e rude do deste imenso Chão da Lagoa, capaz de repudiar a acção governamental quando, na placidez matinal de um sábado rutilante, folheia o DN. À tarde, tudo foi olvidado. À tarde, até eclode a emoção ao ouvir os uivos selváticos do madeirense que põe em sentido esses “cubanos colonialista” do continente.
Confesso que a cólera é exacerbada. Se algum apaniguado ousar replicar mediante o recurso às proverbiais acusações, segundo as quais há “subversivos” que pretendem perpetuar a “Madeira Velha”, obrigo-me a abolir a polidez e a libertar a brejeirice reprimida. Porque estou farto desta indigência jactante, nojenta e servil." escrito por Vítor Sousa no http://estrangeiros.blogspot.com/
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