Mas vamos à intervenção de Jardim. Ele distribuiu insultos, de duvidosa conformidade com o léxico, pelos "políticos do Continente" ("senhores de Lisboa" que não está "disposto a aturar"); reivindicou a intangibilidade do nível de vida da Madeira; disse ser necessária uma nova solução jurídica de unidade na diversidade, preferindo a fórmula chinesa de "um país, dois sistemas" ao nosso modelo constitucional; e instou os seus devotos a reflectirem sobre se a Madeira é economicamente "autoviável" (a calinada é de origem).
Claro que Jardim sabe bem que a região, apresentando embora o segundo PIB per capita de Portugal, exporta pouco mais de um décimo do que importa e tem uma dívida de dimensões americanas (apesar de, em 1997, o Estado ter assumido cento e tal milhões de contos que a Madeira não conseguia pagar, oito anos depois a dívida estava reposta e largamente multiplicada). Ou seja, a economia madeirense deprime-se só de ouvir falar em "coesão" ou "solidariedade nacional".
Por isso, perfilando-se alterações à Lei das Finanças Regionais, ele ameaça com o rudimentar fantasma da independência, mas agora temperado pela ambiguidade de "obviamente" não estarem em causa "aventuras" como as de "Timor e Cabo Verde". Se os órgãos de soberania (dos "socialo-comunistas" do Continente) acreditarem na "autoviabilidade" da Madeira e tiverem medo de uma independência que não seja "aventureira", está feita a festa e a Madeira escapa a qualquer esforço nacional de contenção do despesismo. Se, pelo contrário, à solidariedade que lhe foi tão prodigamente dispensada suceder agora uma fase de realinhamento num compromisso de dimensões nacionais, Jardim ainda poderá defender os salvados da sua imagem no arquipélago, confessando baixinho entre os seus que, afinal, a reflexão sobre a "autoviabilidade" conduziu a conclusões negativas."
Nuno Brederode Santos - jurista no DN
http://dn.sapo.pt/2006/06/04/opiniao/flores_nosso_jardim.html
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