quarta-feira, junho 28, 2006

A autonomia raptada


"O regime jardinista vai celebrar a 1 de Julho os 30 anos da Autonomia regional, numa cerimónia onde os representantes dos partidos da oposição estão impedidos de usar da palavra, o que os levou a promover uma comemoração paralela. Nem isso nem as palavras de Alberto João Jardim, confessando-se aliviado por não ter de conviver com os seus opositores, são motivo de surpresa. A mera existência formal do pluralismo político sempre incomodou o homem que governa ininterruptamente a Madeira há quase três décadas. O desprezo soez que vota às regras democráticas é uma marca por demais conhecida do seu autoritarismo paroquial, persistentemente tolerado pelos órgãos de soberania apesar das afrontas e enxovalhos sistemáticos a que têm sido sujeitos.

Respira-se hoje na Madeira uma atmosfera de fim de reino: são já visíveis as fissuras na muralha de betão que o jardinismo ergueu à volta da ilha e é fácil detectar muitos sinais difusos de medo do futuro, nomeadamente entre aqueles que o jardinismo colocou sob o manto ilusório da sua protecção. A espiral do endividamento e a crescente dependência do exterior aproximam-se do ponto de ruptura, hipotecando as expectativas das próximas gerações. Mas a Jardim isso pouco importa: quando faltar a luz, ele fecha a porta e sai de cena. Depois de mim, o dilúvio.


Enquanto isso não acontece, o arraial continua. E para o arraial dos 30 anos de Autonomia, o Governo de Jardim gastou dezenas de milhares de contos em bandeiras da região que fez distribuir pelas casas dos madeirenses, os quais supostamente as exibiriam nas respectivas janelas, telhados, muros e quintais, por montes e vales fora, numa exuberante celebração patriótica (a bandeira da Madeira é uma réplica do estandarte do movimento separatista Flama, eclipsado como por encanto desde que Jardim ascendeu ao trono regional). Só que aconteceu um pequeno percalço que Jardim terá descurado: as celebrações autonómicas coincidiram com a presença da selecção portuguesa na Alemanha e apenas com muito esforço se descortina uma bandeira regional flutuando entre a profusão das bandeiras nacionais. A vitória sobre a Holanda comprometeu ainda mais as coisas e já não só no exterior das casas como na festa das ruas o azul e amarelo "separatistas", quando eventualmente aparecem, são "inseparáveis" da mancha verde-rubra que alastra por toda a parte.

Que a selecção tenha esvaziado os festejos "separatistas"de Jardim não é propriamente uma surpresa. A retórica do separatismo jardinista tem acirrado o resto do País contra a Madeira e os madeirenses, enquanto o que hoje predomina na Madeira é, precisamente, o temor da separação que entregaria os madeirenses ao mais solitário dos destinos. É o "rectângulo" que quer separar-se da Madeira jardinista, enquanto a Madeira vive cada vez mais dependente do "rectângulo" e vibra com a selecção nacional.

Antes do 25 de Abril, a luta pela Autonomia juntava pessoas de quadrantes políticos muito diversos, mas a partir do momento em que essa antiquíssima aspiração insular foi "sequestrada" e monopolizada pelo jardinismo deixou de ser possível qualquer diálogo civilizado entre quem está no poder e quem está na oposição. Criou-se um clima de hostilidade e crispação na sociedade madeirense que não existia com idêntica intensidade no tempo da ditadura. Entre os madeirenses pastoreados pelo jardinismo instalou-se a ideia de que não deviam nada a ninguém e que tudo lhes era devido. Não tinham deveres mas apenas direitos, sustentados eternamente pelos fundos europeus e nacionais. A protecção soberana do chefe dispensava-os de quaisquer responsabilidades ou iniciativa no campo cívico, económico e político. Foi assim que se chegou a uma caricatura grotesca do que deveria ser a Autonomia.

É certo que, em geral, a população madeirense vive materialmente muito melhor do que no tempo da chamada Madeira Velha. Mas esse indiscutível progresso material fundou-se numa cultura do despesismo e do desperdício sem controlo, sem racionalidade e sem bases de sustentação para o futuro. Há mais de três décadas, o poder estava tão longe que parecia uma miragem inacessível. Agora, o poder está demasiado perto, intromete-se em tudo, decide tudo e mais alguma coisa, passou-se do 8 para o 88 no espaço de trinta anos. A Autonomia significa hoje a sua antítese: a centralização de todos os poderes num homem só. O centralismo longínquo do Terreiro do Paço foi substituído pelo centralismo asfixiante da Quinta Vigia (aliás Quinta das Angústias, pois Jardim até muda os nomes às quintas e prefere vigiar a sentir-se angustiado)."

texto de Vicente Jorge Silva no DN

1 comentário:

Anónimo disse...

Subscrevo!

Zé das Couves