terça-feira, junho 27, 2006

A Atlântico


"Não foi uma decisão fácil, mas este mês em vez de comprar a MAD, optei por adquirir a Atlântico. Não fiquei nada a perder, começo por dizer. O liberalismo de Direita tem muita graça. Aquilo começa com um editorial, na página 2 (página 2 que corresponde ao que na imprensa tradicional, dominada pela esquerda caquética, seria a página 4, em mais uma prova da capacidade de inovar dos liberais conservadores portugueses), a atacar esse velho comunista chamado José Pacheco Pereira por ter tido o atrevimento de dizer que a Atlântico fazia parte do exército de Paulo Portas. O director explica que isso não passa de uma vil mentira. Pior: dor de cotovelo. No fundo, explica PPM, Pacheco Pereira treme de medo «de ver aquele que considerava ser o seu espaço privado de comentário ocupado e disputado por uma nova geração»! He, he,he! E PPM (Paulo Pinto Mascarenhas) anuncia a nova que fará tremer todas as Marmeleiras deste mundo: «O estranho mundo do dr. Pacheco tem os dias contados». Não faz a coisa por menos, o homem. Pimba! Cuidado, José.Na página 4, duas páginas a seguir, nas «Notas dispersas», desmentindo as viperinas teses do homem cujo estranho mundo tem os dias contados, pode ler-se: «Muito interessante foi o regresso de Paulo Portas à vida política activa, com o seu programa O Estado da Arte, na SIC/Notícias». Desde logo, «o ex-ministro da Defesa, que também mostrou vastos conhecimentos cinéfilos e de política internacional (...) é já o candidato número um a receber o prémio de liberal conservador do ano».É um mimo esta Atlântico.
Mas a Atlântico também tem espaço para o liberalismo conservador, versão camionista. Trata-se de uma banda desenhada de fino gosto, muito próprio da direita liberal portuguesa, intitulada «O Sócrates». Fantástico o gosto que a prancha revela. Só vos digo: se o critério de gosto fosse o mesmo, ainda bem que a BD não se chama «O Portas»! Podia ser um escândalo!
Mas a direita liberal portuguesa é muito sui-generis. A chinela escorrega-lhes sempre do pé. P'rá direita, claro.Na página 12 da Atlântico de Abril, um dos sacerdotes da causa, saído da catacumbas da Faculdade de Economia da Universidade Nova (de onde mais podia sair?), Luciano Amaral lança um violento arrazoado sobre o «liberalismo» de Hollywood, que se dedica a fazer filmes sobre cowboys e escritores gay (Brokeback Mountain e Capote), ou sobre o McCarthismo e o racismo, em vez de se dedicar a temas tão interessantes como o Gulag ou os milhares de mortos da responsabilidade de Che Guevara. «Haveria tantos temas dignos de atenção, mas a que a "comunidade" (como ela gosta de se designar) não liga nada», queixa-se, com justiça, o pobre Luciano. Então, sobre o McCarthismo é que ele já não suporta, tanto mais, explica lucidamente Amaral, que, «hoje, sabe-se que todos os que foram denunciados por McCarthy enquanto espiões da URSS eram efectivos espiões da URSS». O que faz de Good Night, and Good Luck, de George Clooney, «talvez, o filme mais desonesto de todos os apresentados». Luciano dixit.Mandasse Luciano Amaral, um liberal de gema, e tudo seria diferente. Ai isso seria! Porque «a estupidez dos activistas de Beverly Hills não carece de confirmação. Mas o que dizer daqueles, como, como nós, que tão pacientemente os aturam?» Sim, o que dizer?
Não perdi muito com a troca, mas prefiro a MAD. É mais liberal."

texto de PM no http://albergueespanhol.blogspot.com/

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